“Adotar a atitude correta pode transformar um stress negativo num stress positivo.”
(Hans Selyer)
Mas será que todo o stresse é mau? O stresse faz parte da vida, mas não é sempre nosso inimigo!
O stresse é uma resposta normal do organismo perante situações que exigem adaptação. Quando temos um desafio, o cérebro interpreta a situação e desencadeia respostas que nos ajudam a ficar mais atentos e preparados. Um pouco de stresse antes de uma apresentação ou de um teste pode, por exemplo, aumentar a concentração e a motivação. O problema surge quando as exigências são percecionadas como superiores aos recursos que temos para lhes responder ou quando o estado de alerta se prolonga demasiado.
Na adolescência, esta questão merece particular atenção. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1 em cada 7 jovens, entre os 10 e os 19 anos, apresenta uma condição de saúde mental. Ansiedade, depressão e perturbações do comportamento estão entre os problemas mais frequentes nesta faixa etária. Isto não significa que um(a) aluno(a) ansioso(a) no início do ano tenha uma perturbação de ansiedade. Sentir preocupação, nervosismo ou alguma pressão perante uma mudança é normal. A questão está na intensidade, na duração e no impacto que esses sentimentos têm na vida diária, da qual faz parte a escola que ocupa de forma significativa a vida dos adolescentes, enquanto espaço de aprendizagem, de relações sociais, expectativas, avaliação e construção da identidade.
Uma revisão sistemática, que analisou 52 estudos sobre pressão académica e saúde mental, encontrou, em 48 deles, uma associação entre maior pressão académica ou determinados períodos do ano escolar e pelo menos um resultado negativo de saúde mental, como sintomas de ansiedade ou depressão. Os autores alertam, contudo, para uma limitação importante: grande parte dos estudos era observacional, pelo que estes resultados não demonstram, por si só, que a pressão escolar seja a causa direta dos problemas de saúde mental.
Os dados do estudo internacional HBSC, realizado em 2021/2022, também mostram que as exigências escolares são uma fonte relevante de pressão para muitos adolescentes. Entre os jovens de 15 anos, por exemplo, 63% das raparigas e 43% dos rapazes referiram sentir-se pressionados pelos trabalhos escolares. O “Health Behaviour in School-aged Children” (HBSC) é uma colaboração internacional de investigação criada, em 1982, para estudar os comportamentos de saúde das crianças e dos adolescentes em idade escolar, com o apoio da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Em Portugal, os resultados do HBSC revelaram também um aumento da perceção de pressão e dificuldades na escola entre 2018 e 2022, incluindo a sensação de haver demasiado trabalho escolar e de este ser aborrecido ou difícil. Por isso, quando setembro chega, não estamos apenas a mudar de calendário, estamos a reativar rotinas, responsabilidades e expectativas.
Um(a) aluno(a) pode sentir, simultaneamente, que precisa de ter boas notas, estudar mais, praticar desporto, estar com o(a)s amigo(a)s, responder às mensagens, pensar no futuro, agradar aos pais, escolher um curso e não falhar. O problema não está, necessariamente, em qualquer uma destas exigências isoladamente, mas na soma das mesmas, o que pode tornar tudo mais pesado. Além disso, o cérebro dos adolescentes ainda está em desenvolvimento, pelo que as áreas envolvidas no controlo dos impulsos, planeamento, tomada de decisões e regulação emocional continuam a amadurecer até ao início da idade adulta. Isto ajuda a compreender por que razão situações, que um adulto pode considerar geríveis, podem ser experienciadas por um adolescente com maior intensidade.
Setembro não tem de ser uma corrida. Não existe uma estratégia mágica para eliminar o stresse. Mas existem comportamentos que ajudam o organismo e o cérebro a lidar melhor com períodos de maior exigência, a saber:
1. Não tentes recuperar tudo de uma vez
Voltar gradualmente às rotinas pode ser mais eficaz do que tentar transformar todos os hábitos no primeiro dia de aulas.
2. Divide o que parece enorme
“Tenho imenso para estudar” é uma tarefa difícil de começar. “Hoje vou estudar este capítulo durante 30 minutos” é uma tarefa concreta.
3. Não confundas desempenho com valor pessoal
Uma nota mede o desempenho numa determinada tarefa, num determinado momento. Não mede o teu valor enquanto pessoa!
4. Fala antes de chegar ao limite
Conversar com um(a) amigo(a), familiar, professor(a), psicólogo(a) ou outro adulto de confiança pode ajudar a transformar um problema, aparentemente, enorme em algo mais fácil de compreender e enfrentar.
5. Aprende a reconhecer os teus sinais
Talvez o teu corpo fique tenso, talvez comeces a irritar-te com facilidade, talvez deixes de ter vontade de fazer coisas de que gostavas, mas, se sentimentos de ansiedade, tristeza, medo ou desânimo forem intensos, persistentes ou interferirem significativamente com a escola, o sono, as relações ou as atividades habituais, é importante procurar ajuda.
Prof.ª Isabel Cristina